Maternar é transformAÇÃO

A minha maternidade começou nove anos antes de engravidar. Como? É que há presenças que não chegam de uma vez. Elas são vivenciadas em cada detalhe: na mudança dos hábitos, nas imagens que criamos silenciosamente e nos sonhos compartilhados. No meu caso, a minha filha chegou antes de nascer.
Para ser mãe atravessei por um processo que transformou a minha rotina por 3.285 dias antes de ver o “positivo” impresso no exame de Beta-HCG. Foram muitos “negativos” para que o “sim, você está grávida” se concretizasse.
Durante a espera, percebi que algumas folhas do “Manual da menina que brinca de boneca” tinham sido arrancadas. Até então, alimentava a fantasia que engravidar dependia apenas da minha vontade. Bem, é muito mais complexo do que ganhar uma boneca para chamar de seu bebê.
Durante nove anos eu aguardei. Aguardei em infinitas salas para consultas, exames e procedimentos. Aguardei, enquanto a dor ocupava o meu corpo e fazia oscilarem as minhas esperanças. Porém, os sonhos têm o poder de dispersar as dores e de renovar as esperanças. E assim, meu marido e eu seguíamos determinados, superando cada dia, cada mês, cada ano.
No entanto, Bárbara chegou! Com seu nascimento, novas descobertas. Ao amamentar, o meu leite foi acrescido de lágrimas e sangue. Aqui, foi a primeira dor da mulher/mãe que eu compartilhei com a minha filha. Então pensei que haviam arrancado outras folhas do “Manual da menina que brinca de boneca”.
Com 11 dias do seu nascimento, me tornei mãe de UTI. Entre internação, alta e nova internação foram quase quatro meses. Nesse momento, a vida passou a acontecer dentro de um ambiente frio, cheio de medo, incertezas, e com máquinas apitando. Aqui, tive a certeza de que no “Manual” havia muitas folhas faltando. Enquanto passava dias infindáveis olhando para a minha bebê, pensava no roteiro desenhado na infância sobre o que seria a maternidade, e sobre o que eu estava vivendo.
Após a sua alta, fomos morar em outro estado. Enquanto pegava a estrada, via a minha carreira sumir pelo retrovisor. Mas, como não sou de ficar olhando para trás, sabia que, ao contemplar uma nova paisagem, encontraria novamente com a minha vida profissional.
Com meu marido e minha filha vivi os dias mais incríveis e sofridos da minha vida. Ao completar 1 ano e 4 meses, Bárbara retornou para a UTI. Desta vez para se despedir. Até se concretizar a sua passagem, foram cinco dias que me senti suspensa da minha vida. Queria dar a ela o meu coração.
Por um instante perguntei a mim mesma:
- O que diria o “Manual da menina que brinca de boneca”?
Procurei por ele e, quando o encontrei, percebi que continha uma única folha. Ao abri-lo, a mensagem: “O amor é a resposta”.
Eu amei e amo. Maternar é um verbo de transformação. Aprendi vivendo, sem manuais, porém, com a certeza de que essa responsabilidade não pode ser solitária.
Se você quiser falar sobre a sua experiência, estou pronta para ouvi-la.
Abraço fraterno,
Beth Morais




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