Qual roupa que te prende?
- bethsmorais
- 20 de mai.
- 2 min de leitura

Foi em 2015 que os vestidos deixaram de caber. Neste ano, faz 11 anos que, ao abrir a porta do armário, estaria descobrindo uma nova compreensão sobre mim. Eu tinha 45 anos quando meus vestidos foram me deixando apertada e sufocada dentro deles.
Vestidos de boneca. Era o que via quando abria o armário. Eu os identificava dessa forma, pois, frequentemente, era o que eu ouvia quando os usava. “Beth, você parece uma boneca, anjo ou fada”. Nesse momento, eu entrava na perimenopausa e havia “conquistado” quatro quilos em poucos meses. Foi aí que iniciei um processo silencioso de reconhecimento sobre quem eu estava me tornando.
Comecei a perceber que aqueles vestidos que vestiam a boneca de antes, iam dando lugar aos que vestiriam a mulher de hoje. Cresci ouvindo sobre a minha delicadeza, sensibilidade e mansidão. Era reconhecida por isso. Sem dúvida, um lugar seguro e de afeto garantido. Claro que as roupas eram escolhidas de forma coerente com o que eu sentia e queria apresentar ao mundo. Nada planejado, só instinto de sobrevivência e pertencimento.
A mudança foi acontecendo aos poucos. Ao ir me despedindo das roupas que sustentavam a minha imagem de dócil, eu me despedia também da tríade clássica: “boneca, fada e anjo”. Não foi uma desconstrução, foi um rito de passagem. Ao optar por modelagens que me abraçassem sem aperto, me permiti sentir mais conforto e liberdade. Simbólico, não?
Essa travessia me empurrou para o amadurecimento. Perdi o medo de não agradar. Deixei que a minha humanidade fosse vista. Aposentei a minha varinha de condão, recolhi as minhas asas e guardei a boneca. E a sensibilidade? Foi apurada e elevada a outro nível – o da sabedoria. Ganhei paz com a certeza de que hoje eu sou amada e respeitada com as minhas imperfeições e limites. Neste momento, aconteceu uma seleção natural: pessoas partiram, outras chegaram.
Diariamente sinto que dei um salto de presença no mundo. A fala nem sempre é mansa, e o posicionamento nem sempre é fácil. Continuo delicada, só que agora, mais assertiva.
E você, que “roupa” ainda te prende a estar no mundo em um lugar que já não te cabe mais?
Abraço fraterno,
Beth Morais




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